sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

As verdades permanecem atrás das formas — Símbolos.
Todo fenômeno é o Símbolo de uma Verdade.
Seu único dever é manifestá-la.
Seu único pecado: preferir-se.
Vivemos para manifestar.
As regras da moral e da estética são as mesmas: toda obra que não manifeste é inútil
e, por isso mesmo, má.
Todo homem que não manifeste é inútil e mau. (Elevando-se um pouco, ver-se-á que
todos manifestam — mas somente depois se deve reconhecer.)
Todo representante da Ideia tende a preferir-se à Ideia que ele manifesta.
Preferir-se — eis aí a falta.
O artista, o sábio, não deve preferir-se à Verdade que ele quer dizer: eis toda a sua
moral; nem a palavra, nem a frase, à Ideia que querem mostrar: eu quase diria que nisso
reside toda a estética.
E não pretendo que essa teoria seja nova; as doutrinas da renúncia não pregam outra
coisa.
A questão moral, para o artista, não é que a Ideia, que ele manifesta, seja mais ou
menos moral e útil a um grande número; a questão é que ele a manifeste bem.
— Pois tudo deve ser manifestado, mesmo as coisas mais funestas:
“Ai daquele pelo qual o escândalo vem”, mas “É preciso que o escândalo venha”.
— O artista e o homem verdadeiramente homem, que vive por alguma coisa, deve ter feito
antes o sacrifício de si mesmo.
Toda a sua vida nada mais é do que um encaminhamento para isso.
E agora, o que manifestar? — Isso se aprende no silêncio.(Esta nota foi escrita em
1890, ao mesmo tempo que o tratado.)

Andre Gide

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

=
Eu já fui corpo de um animal, ainda sou. Arrasto minha materialidade há milênios, convivi com escaras e raspei-me na superfície de toda grama que encontrei. Chama-me o lugar em que dançar é uma prece, ah, dançar para fazer comida, para enrolar os dedos nesse fio infinito que sai da pele de um animal e vem parar aqui, na tua mesa, na escrita de abrir-fechar em alguma janela no bairro de perdizes, numa qualquer rua da ministro godói. Chamam isso de processo de aprender, eu chamo memória. De entrar numa palavra fonte, num cheiro fonte, num objeto fonte deitado pelas mãos de um negro, naquela mulher amamentando no chão de terra batido com seus seios secos, que sonha em segurar os cabelos chorando na chuva. Chamo isso de re-ligação. Escrever não importa. É o rosto a vela que está a se cavar. Uma vez ouvi que falo para dentro. Outra vez ouvi que não sei narrar. E que sou confusa. E que não me exponho. Foi então que decidi fazer as unhas antes de lavar a louça. Para não ser testemunha da força reativa. Para caminhar até o espírito debaixo da escada. E digo: sim, o sagrado. Porque ele não existe sem que eu me mova. E nesse encontro perguntar é escrever é escavar. Se meus seios secaram foi porque a escrita não soube silenciar, não soube cair um passo atrás, parou na minha morada. Eu. Esgotada, enferma, olhando torto para qualquer embriaguez. E chego ao final dessa prece molhada de uma flor que ainda se faz veiohuva que ainda nalquer m, oa. N manimal e vem parar aqui, na tua mesa, na escrita para abrir-fec. Anunciada. Há que se erguer as pontes. Entre o espírito de antes e o corpo de hoje. Há que se comunicar, de reparar os buracos do tecido do mundo, no artesanato invisível para depois, o esquecimento. Há que se refazer o animal. O animal da escritura. Desse instante último.   



segunda-feira, 28 de novembro de 2016

olhar o texto com os olhos da cara
olhar de frente
nunca sem antes lavar a roupa
e não haverá texto limpo, palavra limpa
se a roupa estiver suja, escondida no canto do armário
o sabão é a única possibilidade
de cantar que sou pessoa


quarta-feira, 5 de outubro de 2016

fala-se em vão de justiça enquanto o maior dos navios de guerra não se despedaçar contra a fronte de um afogado

paul celan

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

L´âme est sans retenue

A alma é sem reservas

(edmond jabès)
nada à rumar-
ruah

sábado, 1 de outubro de 2016


E se eu desse todos os beijos na mão que gostaria de ter dado? E os da testa? E todas as risadas abertas? E se tivesse soltado todas as palavras que se precipitaram? 
O corpo não para um segundo. Como pensar que posso morrer? Se já não estou a morrer? Como pensar que um dia nasci, se já estou a nascer? A areia sabe disso. Guardada ali, entre tantas a não ser uma. Nunca vi um grão de areia sozinho. No entanto, escrevo: grão de areia. Posso dizer: o grão de areia. E continuar naturalmente a narrar os acontecimentos de um grão de areia.
Naturalmente. Palavra assustadora. Ah, não há nada naturalmente por aqui.
Se minhas palavras se colassem naquilo que
Naquilo que                                                           se um dia dissesse
Nasceria onde for.

São tantas as bolhas na beira da praia que os grãos de areia sabem algo que eu não sei. São três os pensamentos que tenho: jamais explicar, já não penso, são palavras-apenas.

sexta-feira, 30 de setembro de 2016


entre o indizível e a palavra
está o poema
cama em que repousa o mundo
antes de fazer silêncio para depois escrever,
o que eu desejo
é a própria escrita chegar ao silêncio
e saber que pela escrita
a escrita se desfaz
esse livro vive.
queria ser as suas páginas, o espaço que ele ocupa entre as mãos, o que está escrito, o que não está escrito, por Kazuo, pelo corpo, pelo silêncio que dança e por seu jeito de acomodar-se tão bem
ao lado da cama
esse livro me
vive.


quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Talvez eu tenha começado a escrever no dia em que ouvi a história do meu nascimento. Ou quando usei o batom para grudar nas paredes do guarda-roupa o que estava sentindo. Ou, quando produzia enigmas no estrado da beliche, com lápis de sobrancelha, diariamente, antes de dormir. Ou nas competições de redações intermináveis que fazia na escola.

Talvez eu tenha começado a escrever quando a professora do ensino médio pediu uma redação sobre “quem é você” e descrevi o nascimento de cinco gatinhos em meu colo.

Talvez eu tenha começado a escrever quando caminhei sozinha numa estrada de Minas Gerais, sob o sol e a poeira seca do silêncio. Ou talvez quando entrei no curso de Fonoaudiologia e percebi que a escrita era dor para alguns, instrumento de poder para outros. Ou no mestrado em educação, em que pude posicionar-me contra a patologização da escrita.

Ou quando um dia me disseram que eu deveria abandonar o desejo de escrever crítica de arte porque era poeta. Ou, talvez, quando ouvi alguém dizer que existia poema para além da frase “minha terra tem palmeiras onde canta o sabiá”, ou da figura altiva de Carlos Drummond de Andrade.

Talvez eu tenha começado a escrever quando percebi que minha fala entrecortada, cheia de buracos, era o que eu tinha de melhor.

Talvez eu tenha começado a escrever quando tive minha primeira mesa, uma estante e livros só meus. E quando li os textos da escritora Maria Gabriela Llansol.

Ou quando comecei a perceber que não tinha controle sobre a minha própria escrita. 

Talvez eu comece a escrever quando o único assunto que restar é a escrita.


E já não possa mais deixar de escrever.

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

É um saltar a escrita. E estou aqui sobressaltada. Com uma quantidade de fugas e silenciamentos. Se paro para capturar algo, o instante se vai. São apenas fragmentos, cheiros. Furadeira, carvão, poça. Tudo tão fluido e solto. Como posso ter ficado? Recordo de um tempo em que era ânsia do inteiro, inteiramente fluxo. Tempo em que não precisava de minha própria ajuda. Tenho agora excesso de representações e um profundo medo do branco. Como se tivesse que permanecer sentada. Até doer o corpo. Ou fingir que estou dormindo, mesmo com a luz acesa e um cachorro saltando sobre. É esta a dor da escrita, que eu saberia que viria. E não é a dor que sinto em escrever, é a dor de fabricar o fio, um fio que seja forte o bastante para se romper. Para ver o ainda não.
E a força da vida está nessa vergonha. Enquanto des-teço.

segunda-feira, 23 de maio de 2016

tenho que parar de deixar os objetos me afetarem tanto
será que depois de muito tempo de existência
uma casa é capaz de gerar suas próprias luzes?
nada apagaria sua condição de resto
exceto o rito

segunda-feira, 7 de março de 2016

vou com as mãos
arremessada ao vento
segurando uma folha
dando voltas e nunca voltando
ao mesmo tempo
em que a mão arremessa a folha
e segurar era parar o vento
eu vou urinar no chão
e acender uma vela a cada centímetro
que me separa do trem

e quando ele chega
não subo
faço retiro de silêncio
no meio da multidão

porque minhas veias são minúsculas
mas posso pousar

domingo, 28 de fevereiro de 2016

costura-me o instante
em forma de eterno

domingo, 14 de fevereiro de 2016


o sangue da língua
escorre no corpo da agulha

sábado, 13 de fevereiro de 2016

O canto escolheu a pedra
E juntos foram cachoeira

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

uma coisa que não acredito:  amor.
acreditar é nos números, nas palavras, em deus.
nome próprio, carta assinada.

amor é trabalho de derrubar o chão da casa
e que seja a toda hora.